“A
natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados”, as
palavras de Confúcio, pensador e filósofo chinês, nunca se mostraram tão atuais
e perfeitamente necessárias à sociedade contemporânea. Parece que, porém, a compreensão desses
dizeres foi relegada e os homens e mulheres, principalmente aquele(a)s detentore(a)s
do poder econômico e político, pensam exatamente a contrario sensu: a natureza dos homens é diferente; e mais:
acreditam haver uma escala de superioridade entre essa natureza.
Contudo,
ao conduzir o pensamento dessa forma, fica evidente que o significado da
palavra ‘cultura’ não é conhecido por grande parte da sociedade.
Segundo
Lévi-Strauss1, cultura consiste numa substituição daquilo que é
aleatório por algo organizado, ou seja, é um sistema de organização que visa
classificar, codificar o mundo. Esses códigos, por sua vez, decifram os
indivíduos e as suas relações, estabelecendo, assim, as diferenças. A cultura,
como esse sistema de significação simbólica, surge das relações entre
indivíduos, mas também regula o modo como estas se dão. Ela, porém, não se
apresenta de modo diferente nas variadas sociedades em virtude de
características biológicas hereditárias dos membros que compõem estas últimas,
nem mesmo devido aos aspectos físicos dos territórios sobre os quais ela se
desenvolve. O fato é que cada cultura segue seu próprio caminho de acordo com
os diferentes eventos históricos que cada sociedade enfrentou e ainda enfrenta.
Nesse
sentido, é razoável a percepção de que não há uma cultura mais evoluída ou mais
civilizada; o que existe são apenas sistemas diferentes de classificação, os
quais apresentam suas peculiaridades de acordo com a sociedade em que estão
inseridos. O pensamento forçosamente introduzido pelos nossos colonizadores de
que seus hábitos encontravam-se num estágio de evolução superior ao nosso,
ensinou-nos e induziu-nos a também valorar dessa maneira cada costume que se
apresenta no nosso país. Valoração esta absolutamente perigosa; isto porque ao
classificar determinada cultura como inferior, além de a classe dominante se
impor cada vez mais sobre os marginalizados e ainda manter seu respectivo status quo, surge aí um preconceito
repugnante e gerador de discriminação e violência.
É
exatamente nesse contexto que se deve analisar e pensar o extermínio dos MCs na
Baixada Santista; foram quatro assassinatos em quarenta e oito meses. Esses
episódios brutais, juntamente com tantos outros atos violentos praticados
contra artistas do funk, evidenciam a tentativa de imposição da cultura da
classe que domina econômica e politicamente a sociedade sobre aqueles que nela são
excluídos.
O
funk, bem como outros gêneros musicais característicos das áreas pobres do
Brasil (o samba e o pagode, por exemplo), é tido como inferior e não digno de
respeito pela sociedade. Tal estilo musical é constantemente associado ao
crime, mas esquece-se de que ele também é usado para lazer e diversão dos
jovens oprimidos.
Há,
porém, algo mais profundo a ser analisado, qual seja, o motivo pelo qual Estado
e classes dominantes da sociedade estigmatizam e taxam como inferior e não
civilizado o funk. A questão é que, além de terem por espoco impedir que a
cultura dos excluídos seja valorizada, as letras de funk, na sua esmagadora
maioria, denunciam os inúmeros problemas enfrentados pelos moradores das
favelas brasileiras: desemprego, pobreza, violência, falta de acesso à educação
e lazer etc. É, pois, inviável e prejudicial ao nosso Estado que tais problemas
sejam revelados de maneira tão explícita e crítica; daí a tentativa de, ao
invés de modificar a realidade opressora, tentar-se silenciá-la. Silêncio este
tentado da forma mais desumana e ilegal possível: o preconceito ultrapassa as
barreiras do moralmente incorreto para alcançar os atos cruéis que ceifam a
vida de seres humanos.
A
lógica própria da cultura (inclusive da cultura do funk) é, por assim dizer, o
fato de ela construir e ser construída pelos próprios homens; de ser um sistema
de representação que, malgrado esteja presente em todo o mundo e seja atributo
distintivo da Humanidade, surge e desenvolve-se com características
específicas, diversas, mas igualitariamente enriquecedoras, em toda e cada
sociedade.
É
preciso impedir que também morram as palavras de MC Primo: “venderam os meus
pensamentos, mas não calaram a minha voz”. 2 O Funk pede Paz!
1 CLAUDE,
Lévi-Strauss, Editora Presença, 1952
