sábado, 5 de maio de 2012

O Estado pede silêncio; o Funk pede Paz




“A natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados”, as palavras de Confúcio, pensador e filósofo chinês, nunca se mostraram tão atuais e perfeitamente necessárias à sociedade contemporânea.  Parece que, porém, a compreensão desses dizeres foi relegada e os homens e mulheres, principalmente aquele(a)s detentore(a)s do poder econômico e político, pensam exatamente a contrario sensu: a natureza dos homens é diferente; e mais: acreditam haver uma escala de superioridade entre essa natureza.
Contudo, ao conduzir o pensamento dessa forma, fica evidente que o significado da palavra ‘cultura’ não é conhecido por grande parte da sociedade.
Segundo Lévi-Strauss1, cultura consiste numa substituição daquilo que é aleatório por algo organizado, ou seja, é um sistema de organização que visa classificar, codificar o mundo. Esses códigos, por sua vez, decifram os indivíduos e as suas relações, estabelecendo, assim, as diferenças. A cultura, como esse sistema de significação simbólica, surge das relações entre indivíduos, mas também regula o modo como estas se dão. Ela, porém, não se apresenta de modo diferente nas variadas sociedades em virtude de características biológicas hereditárias dos membros que compõem estas últimas, nem mesmo devido aos aspectos físicos dos territórios sobre os quais ela se desenvolve. O fato é que cada cultura segue seu próprio caminho de acordo com os diferentes eventos históricos que cada sociedade enfrentou e ainda enfrenta.
Nesse sentido, é razoável a percepção de que não há uma cultura mais evoluída ou mais civilizada; o que existe são apenas sistemas diferentes de classificação, os quais apresentam suas peculiaridades de acordo com a sociedade em que estão inseridos. O pensamento forçosamente introduzido pelos nossos colonizadores de que seus hábitos encontravam-se num estágio de evolução superior ao nosso, ensinou-nos e induziu-nos a também valorar dessa maneira cada costume que se apresenta no nosso país. Valoração esta absolutamente perigosa; isto porque ao classificar determinada cultura como inferior, além de a classe dominante se impor cada vez mais sobre os marginalizados e ainda manter seu respectivo status quo, surge aí um preconceito repugnante e gerador de discriminação e violência.
É exatamente nesse contexto que se deve analisar e pensar o extermínio dos MCs na Baixada Santista; foram quatro assassinatos em quarenta e oito meses. Esses episódios brutais, juntamente com tantos outros atos violentos praticados contra artistas do funk, evidenciam a tentativa de imposição da cultura da classe que domina econômica e politicamente a sociedade sobre aqueles que nela são excluídos.
O funk, bem como outros gêneros musicais característicos das áreas pobres do Brasil (o samba e o pagode, por exemplo), é tido como inferior e não digno de respeito pela sociedade. Tal estilo musical é constantemente associado ao crime, mas esquece-se de que ele também é usado para lazer e diversão dos jovens oprimidos.
Há, porém, algo mais profundo a ser analisado, qual seja, o motivo pelo qual Estado e classes dominantes da sociedade estigmatizam e taxam como inferior e não civilizado o funk. A questão é que, além de terem por espoco impedir que a cultura dos excluídos seja valorizada, as letras de funk, na sua esmagadora maioria, denunciam os inúmeros problemas enfrentados pelos moradores das favelas brasileiras: desemprego, pobreza, violência, falta de acesso à educação e lazer etc. É, pois, inviável e prejudicial ao nosso Estado que tais problemas sejam revelados de maneira tão explícita e crítica; daí a tentativa de, ao invés de modificar a realidade opressora, tentar-se silenciá-la. Silêncio este tentado da forma mais desumana e ilegal possível: o preconceito ultrapassa as barreiras do moralmente incorreto para alcançar os atos cruéis que ceifam a vida de seres humanos.
A lógica própria da cultura (inclusive da cultura do funk) é, por assim dizer, o fato de ela construir e ser construída pelos próprios homens; de ser um sistema de representação que, malgrado esteja presente em todo o mundo e seja atributo distintivo da Humanidade, surge e desenvolve-se com características específicas, diversas, mas igualitariamente enriquecedoras, em toda e cada sociedade.
É preciso impedir que também morram as palavras de MC Primo: “venderam os meus pensamentos, mas não calaram a minha voz”. 2 O Funk pede Paz!

1 CLAUDE, Lévi-Strauss, Editora Presença, 1952

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