É campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação
É campeão da ignorância, do desespero, desnutrição
É campeão da covardia e da miséria, corrupção
É campeão do abandono, da fome e da prostituição
(Gabriel, o pensador)
As mudanças e inovações da vida moderna; todas essas novas parafernálias tecnológicas; a pressa por saber mais, por conquistar um emprego melhor, um carro novo; e tantas outras produções diárias que nos maravilham pela marca do desenvolvimento nelas expressa, nos induzem a esquecer o passado e tudo aquilo que dele fez parte. Esquecimento este triste e perigoso, pois, apagando histórias, apagam-se também tanto as criações culturais produzidas e vividas, bem como os erros que hoje não mais deveriam ser cometidos.
Parece-nos,
assim, que a sociedade esqueceu-se por completo do que consistiu a “política do
pão e circo” em Roma, em especial no tempo do Império. E, ao argumento de que
generalizações são falsas e perigosas, tem-se que aqueles que ainda dela se
relembram, são incapazes de compreendê-la e correlacioná-la à política dos
atuais governantes brasileiros.
A política do
pão e circo era o modo pelo qual os líderes romanos obtinham a obediência e o
apoio incontestáveis da população. Fornecendo cereais e realizando eventos
grandiosos responsáveis pela diversão do povo, os astutos governantes mantinham
alienados e passivos todos os habitantes do Império Romano, e governavam (ou
roubavam) como bem queriam.
O fato é que
o Brasil parece incorporar tal política romana, mas um pouco que às avessas.
Isso porque a Copa do Mundo de 2014 (sediada pelo nosso emergente país)
“beneficiará” os brasileiros apenas com o circo; nada de pão!
Explico
melhor.
O futebol,
incorporado na Copa do Mundo, manterá incólume sua função de divertir e alienar
os cidadãos. Ao governo, então, surge a oportunidade para que toda a corrupção
e ausência de políticas efetivas capazes de concretizar o bem comum sejam
ocultadas e não percebidas pelo povo. Entretido e sem informação, os brasileiros
hão de deixar livre o caminho para a estripulia dos nossos políticos.
Mas, e o pão?
Ou melhor, a retirada dele?
Retirar do
povo a comida (entendida aqui tanto em seu sentido literal, como também
representando as casas, escolas e dinheiro público) condiz exatamente com a
ideia de que a Copa é a grande festa do capitalismo.
Sim, a Copa
do Mundo de Futebol “personifica” o sistema capitalista. De acordo com o
relatório final do Plano de Modernização do Futebol Brasileiro (2000) da
Fundação Getúlio Vargas, o futebol mundial movimenta, em média, cerca de 250
bilhões de dólares anuais (imagine
o quanto a Copa não contribui para esses números).
Além dos
grandiosos lucros, as estruturas são bastante semelhantes: a Copa é controlada
por uma minoria (classe alta) e consumida pela massa manipulada pela mídia e
pela ausência de educação de qualidade.
Outro
princípio capitalista presente na base do referido evento é aquela lógica
segundo a qual para que exista um vencedor, um outro deve perder. E essa
perversa disputa encontra-se tanto dentro (coletiva e individualmente) como
fora dos campos: para que os grandes lucrem, deve haver prejuízo para os
pequenos – remoções de favelas; desapropriações; não pagamento de indenizações;
massacres etc.
A exploração
de mão-de-obra semi-escrava, inclusive de crianças e adolescentes, é também uma
das faces capitalistas da Copa. Patrocinadores das principais seleções do
mundo, as grandes corporações (Adidas e Nike, por exemplo) produzem artigos
esportivos a preços baixíssimos e os revendem a elevadas taxas de lucros.
Quase
fechando o ciclo, a valorização excessiva da aparência – através da cópia dos
estilos e penteados dos jogadores – é essencial para a venda de uma absurda
quantidade de produtos e para a imposição de um padrão de moda e beleza sobre
os indivíduos.
Por fim, a
falta de investimentos na educação e o excesso de dinheiro público utilizado na
realização da Copa do Mundo é a forma mais eficiente encontrada pelo
capitalismo para que continue existindo “ad
eternum” a massa marginalizada tão necessária para a sobrevivência desse
sistema.
Enfim, não
lembrarmos do que foi a “política do pão e circo” não significa apenas abrirmos
mão da compreensão da história da humanidade. Olvidarmos os enganos do passado
é uma maneira eficiente de mantermos veladas e despercebidas as atrocidades,
falcatruas e injustiças concretizadas pelos detentores do Poder no Brasil.
http://www.scielo.br/pdf/gp/v12n1/a03v12n1.pdf
http://www.fazendomedia.com/novas/esportes210706.htm

