segunda-feira, 18 de junho de 2012

Copa do Mundo: Pão e Circo às avessas?




 É campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação
É campeão da ignorância, do desespero, desnutrição
É campeão da covardia e da miséria, corrupção
É campeão do abandono, da fome e da prostituição
 
(Gabriel, o pensador)




     As mudanças e inovações da vida moderna; todas essas novas parafernálias tecnológicas; a pressa por saber mais, por conquistar um emprego melhor, um carro novo; e tantas outras produções diárias que nos maravilham pela marca do desenvolvimento nelas expressa, nos induzem a esquecer o passado e tudo aquilo que dele fez parte. Esquecimento este triste e perigoso, pois, apagando histórias, apagam-se também tanto as criações culturais produzidas e vividas, bem como os erros que hoje não mais deveriam ser cometidos.
Parece-nos, assim, que a sociedade esqueceu-se por completo do que consistiu a “política do pão e circo” em Roma, em especial no tempo do Império. E, ao argumento de que generalizações são falsas e perigosas, tem-se que aqueles que ainda dela se relembram, são incapazes de compreendê-la e correlacioná-la à política dos atuais governantes brasileiros.
A política do pão e circo era o modo pelo qual os líderes romanos obtinham a obediência e o apoio incontestáveis da população. Fornecendo cereais e realizando eventos grandiosos responsáveis pela diversão do povo, os astutos governantes mantinham alienados e passivos todos os habitantes do Império Romano, e governavam (ou roubavam) como bem queriam.
O fato é que o Brasil parece incorporar tal política romana, mas um pouco que às avessas. Isso porque a Copa do Mundo de 2014 (sediada pelo nosso emergente país) “beneficiará” os brasileiros apenas com o circo; nada de pão!
Explico melhor.
O futebol, incorporado na Copa do Mundo, manterá incólume sua função de divertir e alienar os cidadãos. Ao governo, então, surge a oportunidade para que toda a corrupção e ausência de políticas efetivas capazes de concretizar o bem comum sejam ocultadas e não percebidas pelo povo. Entretido e sem informação, os brasileiros hão de deixar livre o caminho para a estripulia dos nossos políticos.
Mas, e o pão? Ou melhor, a retirada dele?
Retirar do povo a comida (entendida aqui tanto em seu sentido literal, como também representando as casas, escolas e dinheiro público) condiz exatamente com a ideia de que a Copa é a grande festa do capitalismo.
Sim, a Copa do Mundo de Futebol “personifica” o sistema capitalista. De acordo com o relatório final do Plano de Modernização do Futebol Brasileiro (2000) da Fundação Getúlio Vargas, o futebol mundial movimenta, em média, cerca de 250 bilhões de dólares anuais (imagine o quanto a Copa não contribui para esses números).
Além dos grandiosos lucros, as estruturas são bastante semelhantes: a Copa é controlada por uma minoria (classe alta) e consumida pela massa manipulada pela mídia e pela ausência de educação de qualidade.
Outro princípio capitalista presente na base do referido evento é aquela lógica segundo a qual para que exista um vencedor, um outro deve perder. E essa perversa disputa encontra-se tanto dentro (coletiva e individualmente) como fora dos campos: para que os grandes lucrem, deve haver prejuízo para os pequenos – remoções de favelas; desapropriações; não pagamento de indenizações; massacres etc.
A exploração de mão-de-obra semi-escrava, inclusive de crianças e adolescentes, é também uma das faces capitalistas da Copa. Patrocinadores das principais seleções do mundo, as grandes corporações (Adidas e Nike, por exemplo) produzem artigos esportivos a preços baixíssimos e os revendem a elevadas taxas de lucros.
Quase fechando o ciclo, a valorização excessiva da aparência – através da cópia dos estilos e penteados dos jogadores – é essencial para a venda de uma absurda quantidade de produtos e para a imposição de um padrão de moda e beleza sobre os indivíduos.
Por fim, a falta de investimentos na educação e o excesso de dinheiro público utilizado na realização da Copa do Mundo é a forma mais eficiente encontrada pelo capitalismo para que continue existindo “ad eternum” a massa marginalizada tão necessária para a sobrevivência desse sistema.
Enfim, não lembrarmos do que foi a “política do pão e circo” não significa apenas abrirmos mão da compreensão da história da humanidade. Olvidarmos os enganos do passado é uma maneira eficiente de mantermos veladas e despercebidas as atrocidades, falcatruas e injustiças concretizadas pelos detentores do Poder no Brasil.



http://www.scielo.br/pdf/gp/v12n1/a03v12n1.pdf
http://www.fazendomedia.com/novas/esportes210706.htm

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Machismo: naturalize-o ou queime-o

     
       Oito de Março de 1857: Nova Iorque é a sede de uma das maiores manifestações de coragem e tomada de consciência das mulheres. A morte de 130 tecelãs, numa fábrica de tecidos, ocorrida quando o sexo feminino lutava por condições de trabalho melhores e mais equitativas não foi, porém, o primeiro ou o único ato de insatisfação e expressão femininas. Talvez tenha ele sido o início de um despertar da sociedade (ainda que pequeno) no que diz respeito aos direitos das mulheres.
       O fato é que o machismo envolve e esmaga a sociedade há tanto tempo, que já se tornou naturalizado entre os indivíduos; ele pode ser encontrado nas mais variadas classes sociais, falas e atitudes; perebê-lo e mitigá-lo, entretanto, é tarefa árdua e exige tanto a tomada de consciência por cada indivíduo quanto pela sociedade como um todo.
       Numa (infeliz) tentativa de legitimar a ideologia segundo a qual o homem domina socialmente a mulher, buscam-se argumentos na condição da humanidade enquanto espécie animal. Segundo tais defensores da superioridade masculina, o fato de, na maior parte das espécies animais, a fêmea ser a responsável por cuidar dos filhotes e do ambiente em que vive a família, indica que os seres humanos não poderiam escapar a essa regra. É natural, portanto, que a mulher cuide da casa, enquanto o homem trabalha para o sustento da família.
       A partir desse pensamento, naturaliza-se não apenas a submissão feminina no que diz respeito ao trabalho, mas também e, por consequência, a subordinação ao sexo oposto nos mais diversos setores sociais.
       É certo que não se pode ignorar a espécie humana como espécie animal, mas é inegável, também, que o "homo sapiens" possui atributos próprios capazes de produzir novos padrões de cultura, modificando tanto estes últimos quanto as condições naturais na qual surgiu. A sociedade é aterada por aqueles que a integram: linguagem, hábitos, educação, tecnologia e formas de trabalho são modificados constantemente. A própria inteligência e capacidade de adaptação, tão bem quistas pelos seres humanos, possibilitam que eles desprendam-se das garras do que é natural num primeiro momento e movam-se a fim de construir uma cultura capaz de equiparar homens e mulheres.
       Deus é homem. Eva levou Adão ao pecado. Mulheres aumentam a venda de cerveja. Mas, cuidado: mulher bêbada é repugnante. Mulheres são frágeis. Devem, pois, ficar em casa. Mulheres dignas têm pudor. Homens são deuses, fortes, inteligentes e mais capazes.
       Essas informações nos são entregues prontas e, por comodidade e/ou ausência de conhecimento crítico, a maioria de nós (incluindo-se aí o Estado) aceita, calada, a figura da mulher enquanto subordinada ao homem, enquanto inferior e objeto sexual deste.
       A sociedade não é a mesma. Não devem, portanto, permanecer imutáveis também os direitos e as concepções sobre o papel da mulher na realidade em que vivemos.
      Que, além dos sutiãs, sejam queimadas as ideias e atitudes que cruelmente oprimem o sexo feminino. Que se queime, pois, o machismo!