Em suas
“Lições Preliminares do Direito”, Miguel Reale, ao correlacionar Direito e
Moral nos apresenta duas teorias, quais sejam, a do “Mínimo Ético”, que afirma
ser o Direito o mínimo moral necessário para que a sociedade bem sobreviva; e uma
outra que, por sua vez, defende que apesar de haver um campo de semelhanças
entre Direito e Moral, ao primeiro também compete a tutela de ações imorais ou
amorais. Curiosamente (ou não), há quem aponte como ideal o
“mínimo ético”, ou seja, o correto e preferível é a total moralidade do
Direito.
Há,
entretanto, que se perquirir: o que é a Moral? Ou melhor, quem diz o que é
Moral?
Nosso país
foi colonizado por ocidentais que, acreditando serem eles próprios os únicos
evoluídos e humanizados da humanidade, impuseram não só um domínio político,
econômico e militar sobre nossa suposta sociedade selvagem, mas também nos
submeteram a suas crenças ideológicas e, principalmente, religiosas.
O catolicismo
legitima-se como a religião oficial e a única capaz de revelar a verdade. Essa
verdade revelada, então, nada mais é do que o ditame europeu de como devem
comportar, agir, pensar e viver os bárbaros incivilizados da América. Exigindo
um comportamento condizente com os dogmas do catolicismo, as regras de conduta
(creio que também se pode dizer o Direito) constituem-se, pois, em regras
religiosas e, consequentemente, regras morais, isto porque a moral era ditada
pelos católicos representantes do Deus uno, onipotente, onipresente e
onisciente.
Civilizados
os bárbaros, a sociedade intensifica seu imprescindível processo de evolução.
Deixando para trás séculos de Estados totalitários, ditatoriais e liberais, o
Brasil alcança (e aqui é necessário que se reconheça uma grande e verdadeira
conquista) o Estado Democrático de Direito, o qual abarca o Estado Laico.
Ocorre que a
democracia e a laicidade são conceitos não totalmente materializados e
concretizados no nosso Estado. Pelo fato de não haver liberdade de expressão
para aqueles “reles” mortais cuja orientação religiosa não é católica ou
protestante - hoje maioria absoluta na sociedade, não há também tal direito de
expressão para quem possui pensamentos e ideologias diversas (muitas vezes até
confrontantes) com os credos das religiões acima mencionadas. O padrão moral defendido
e vivido pelos brasileiros ainda é fortemente influenciado, quando não ditado,
pelo catolicismo – e mais recentemente também pelo protestantismo.
A Igreja
esquece-se de que não mais é parte integrante do Estado e, por isso, insiste em
proferir o que deve ou não ser proibido, bem como o que deve ou não ser
criminalizado. Nesse sentido, fazendo jus à uniformização e padronização
católicas, à divisão maquiavélica dos indivíduos em ‘bons’ e maus’, a moral
social religiosa repugna tudo o que é diferente, tudo aquilo que vai além dos
limites da procuração por Deus outorgada e a eles (somente a eles) entregue.
Os que defendem o 'mínimo ético' se esquecem, então, de que a moral nada mais é do que os princípios e valores
adotados pelo grupo que domina a sociedade, grupo este profundamente adepto aos
arcaicos e opressores princípios e valores das ‘grandes’ (nem por isso melhores
e mais verdadeiras) religiões. Criminosos, prostitutas, vadias, ateus, adeptos
ao aborto e à maconha e homossexuais não são dignos de estarem do lado dos “bons”;
suas condutas devem ser, pois, vedadas e criminalizadas a fim de que a
sociedade permaneça esse palco de bondade, amor, respeito, pudor e moralidade
que é; cenário este tão essencial à sobrevivência dos eternos homens brancos,
proprietários, héteros, santas, cristãos e hipócritas detentores do Poder.

As experiências acumuladas demonstram que a consolidação das estruturas desafia a capacidade de equalização das condições financeiras e administrativas exigidas.
ResponderExcluirParticularmente, eu concordo com o mínimo ético, mas já explico:
ResponderExcluirPara mim, há uma diferença gritante entre moral e ética:
- moral é a experiência que você trás para a vida toda, são os valores e a educação que te ergueram e que fazem suas críticas e o modo como você vê as coisas.
- ética, por outro lado, é um conceito mais geral, permeando religiões, crenças, credos, e etc.
Ou seja, uma pessoa JAMAIS consegue se desvencilhar de sua moral, tendo em vista que as experiências e valores de vida adquiridos baseiam todas as nossas atitudes. Porém, em lado oposto, uma pessoa consegue perfeitamente deixar sua ética de lado (uma pessoa que não seja fanática, lógico), para ver com mais clareza uma situação.
Tendo em vista ESSE POSICIONAMENTO, eu acredito que o direito deve permear sim pelo "mínimo ético", deixando que os conceitos "gerais" fiquem de fora e não influenciem nas atitudes.
- ex: um juiz que cresceu vendo a mãe ser estuprada enraizou aquela experiência, e com certeza julgará com mais rigidez um crime de estupro do que um juiz que jamais sofreu a experiência na pele > isso, para mim, compõe o valor moral de cada um. Esse mesmo juiz, que teve a mãe estuprada, e engravidada em virtude disso, presenciou a mãe falecer no parto devido ao feto, tratando-se já ali de um nati-morto.
O que NÃO PODE é ele ser católico e julgar contrariamente ao aborto tendo em vista seus valores ÉTICOS, porque isso não é justiça, é controle mental em massa.
(resumindo: eu concordo com você, no fim das contas; só que diferencio moral de ética, porque a ética de hoje em dia não tem moral NENHUMA.)
beijo, excelente texto!